Mitos e verdades sobre a alergia em cães

O seu cão lambe as patas?

Sofre de coceira moderada a intensa?

Tem infecções de pele e ouvidos recorrentes?


Se respondeu que sim para alguma destas questões, este post pode te ajudar a entender o que há com o seu amigo. Saiba mais a seguir.

A dermatite atópica canina é uma doença inflamatória, crônica, recorrente, que causa coceira moderada a intensa e que é, na grande maioria das vezes, associada a anticorpos voltados contra alérgenos ambientais, podendo também ser desencadeada por alérgenos alimentares. É uma doença multifatorial, tendo como os principais fatores causais a deficiência na barreira epidérmica e a reação de hipersensibilidade contra os alérgenos.

A pele normal possui uma camada protetora composta de células e uma emulsão lipídica, que se organiza, analogicamente, como um muro de tijolos, em que estes seriam as células epiteliais e o cimento a emulsão lipídica. Esta barreira protege o organismo contra a entrada de microrganismos invasores, substâncias irritantes, alérgenos e controla a perda de água pela epiderme. Além disto, a emulsão lipídica contém substâncias antimicrobianas que auxiliam no combate de patógenos e no equilíbrio da microbiota local normal. Os animais com dermatite atópica possuem uma deficiência nesta barreira epidérmica, de modo geral, causada principalmente pela menor concentração e distribuição irregular de ceramidas, ácidos graxos e peptídeos antimicrobianos na emulsão lipídica, como consequência, a pele torna-se mais permeável a invasores, irritantes e alérgenos, mais ressecada devido a perda de água e mais suscetível a infecções, na grande maioria das vezes causadas por microrganismos habitantes da microbiota local, oportunisticamente.

Ao adentrarem-se com mais facilidade nessa pele com a barreira epidérmica rompida, os invasores encontram um sistema imune hiperreativo, gerando a reação  hipersensibilidade. Os principais alérgenos desencadeadores da reação são: ácaros da poeira doméstica, pólens, gramíneas, fungos ambientais, epitélio de barata, lã de carneiro e epitélio de gatos. Os alérgenos alimentares podem também atuar como agentes desencadeadores de crises de DAC em animais suscetíveis. Os principais alérgenos alimentares são proteínas de alto peso molecular presentes em carne bovina, carne de frango, ovos, derivados lácteos e farinha de trigo.

A dermatite alérgica canina se caracteriza por aparecimento dos sinais clínicos entre um e três anos de idade, não possui predisposição de gênero, sendo machos e fêmeas afetados igualmente. A predisposição racial é observada, sendo as principais raças afetadas: West Highland White Terrier, Yorkshire, Shih Tzu, Beagle, Maltês, Labrador Retriever, Golden Retriever, Buldogue Inglês, Buldogue Francês e Pug. Teoricamente, cães de raça definida são mais afetados, mas muitos animais mestiços são atendidos com a doença. As diferentes raças podem apresentar a distribuição das lesões cutâneas em diferentes locais, como mostrou o estudo de Wilhem e colaboradores, em 2011.

Principais localizações do prurido coceira atopia de acordo com as raças dos cães

                                                                 Nesta figura, observa-se a frequência de áreas afetadas por dermatite atópica canina, nas diversas raças (WILHEM et al,   2011)

 

Os principais sintomas da dermatite atópica canina são: coceira moderada a intensa, lambedura de patas, ato de esfregar a face em objetos e móveis, prurido perianal, vermelhidão nas axilas e abdômen, infecções de ouvido e pele recorrentes, inflamação das pálpebras com ou sem conjuntivite e secreção ocular, e, mais raramente, maior frequência  sinais respiratórios como espirros, tosse e espirro reverso.

Existem diversos MITOS e VERDADES relacionados aos sintomas da atopia canina, e vamos tentar solucionar alguns:

-     1) A lambedura de patas é emocional e o animal faz isso para aliviar o stress, frustração e tédio, e chamar a atenção do dono.

MITO. Existem sim os casos de dermatites por lambeduras em patas, mas na grande maioria dos casos, o animal se lambe excessivamente para aliviar a sensação de prurido na região interdigital.  A ansiedade pode predispor o cão a crises de dermatite atópica e, assim, lambedura de patas mais frequente por ocorrer, mas o fator emocional não é causa primária deste sintoma.

-     2) Infecções de ouvido recorrentes são atribuídas apenas ao acúmulo de água durante o banho?                                                               

      MITO. O excesso de água pode sim causar otites, mas, se o animal tem infecções otológicas recorrentes, na grande maioria das vezes, isto ocorre secundariamente à DAC.

      3) A castração auxilia no controle dos sintomas dermatológicos relacionados com a dermatite alérgica canina?    

      MITO e VERDADE. A atopia não são causados por hormônios reprodutivos.  Disfunções reprodutivas podem causas outras dermatopatias. Desta forma, castrar o animal com o intuito de tratar a pele, na dermatite alérgica canina , não resolverá o problema. Entretanto, em alguns animais, a pressão reprodutiva e os hormônios sexuais podem aumentar a ansiedade, tornando as crises de dermatite alérgica canina mais frequentes. Nestes casos, a castração pode ser indicada como um fator adjuvante da terapia.

      4) Rações à base de peixe são hipoalergênicas.

      MITO. Para que uma ração seja considerada hipoalergênica, ela deve conter proteínas hidrolisadas, para a redução do tamanho das mesmas, e, assim, redução da sua imunogenicidade. É limitado o número de rações com este perfil no mercado e o veterinário deve ser consultado para instruí-lo sobre qual utilizar.

     5) Dermatite alérgica canina é uma doença incurável, mas é possível o controle adequado, promovendo conforto e qualidade de vida ao animal. Entretanto, isto exige diversas abordagens terapêuticas e não há nenhum tratamento milagroso, até o momento.   

      VERDADE. Devido às características da dermatite alérgica canina , seu caráter multifatorial constituído por alterações estruturais da pele e imunológicas, o controle da doença deve ser feito nestes diversos fatores. Isto garante ao cão qualidade de vida e conforto, mas não impede que novas crises da doença venham a ocorrer.


Caso tenha identificado o seu animal neste texto, procure seu veterinário para que seja feito o diagnóstico e tratamento adequados, já que a doença tende sempre a se agravar e provocar muito desconforto ao seu animalzinho.

 

 

 Dra Larissa Botoni Medica Veterinaria Dermatologa

Larissa S. Botoni de Andrade é médica veterinária doutoranda em Ciência Animal pela UFMG, com doutorado sanduíche na University of Minnesota/USA. Possui  especialização em Dermatologia Veterinária pela SBDV/USP.

Contato: botonidermavet@gmail.com